NOS Primavera Sound | Dia 10 | O ritmo nostálgico e a ansiedade do futuro

O dia adivinhava-se longo e quente, mas a expectativa presente no ar fazia esquecer o cansaço futuro ou mesmo a nostalgia de que um dos festivais favoritos do público português iria deixar-nos até 2018 para recuperar forças e um cartaz incrível (esperamos nós!).

Já muitos quilómetros tinham sido percorridos pelos nossos pés depois dos dois dias anteriores, mas o pó das nossas botas e os nossos pés latejantes não nos impediram de continuar a viagem pela música.

O terceiro dia do festival não era para tristezas, apesar de ser o último, trazia artistas que grande parte do público antecipava ver: Aphex Twin, Metronomy, Japandroids são alguns desses nomes.

O Porto no dia 10 de Junho foi sem dúvida o epicentro da festa, não só se celebrava na Foz o Dia de Portugal, com presença do Rei das Selfies – Sr. Presidente da República – Marcelo Rebelo de Sousa, mas celebrava-se a música, a diversão e a vida, ali ao lado, no Parque da Cidade.  Como o dia de Portugal deve ser celebrado, iniciaram-se os concertos no Palco NOS com uma banda portuguesa, Evols – locais, psicadélicos e prestes a lançar um álbum – um bom aquecimento para a maratona de música que se seguia.

Mas no Palco Ponto, ainda o sol estava a brilhar, houve tempo para dançar com Songhoy Blues – batidas quentes e alegres, um contraste certamente ao restante cartaz, mais ocidental e introspectivo. Vindos do Mali directamente para o Parque da Cidade criaram uma micro-atmosfera em que a música era o ponto de união entre todos os que presenciavam o seu espectáculo.

No Palco Super Bock, Elza Soares, a DIVA encheu o palco e inundou a audiência com o seu Soul oriundo do país irmão. É notável que com os seus 86 anos, Elza ainda entretém, com a sua voz caracteristicamente envelhecida e rouca mas com a mesma entrega de há anos atrás. Foi dia de aniversário para Portugal, e a nossa amiga Brasileira não deixou isso passar em claro –  cantamos os parabéns à nossa nação, velhinha, pequena em tamanho mas grande em alma. Elza trouxe a união dos países de língua oficial portuguesa aos palcos do NOS Primavera Sound, e isso foi uma grande motivo de celebração.

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Os Wand tocavam entre o flair e soul de Elza Soares, uma banda digna de ser ouvida sem barulho de fundo, fez-se ouvir com guitarradas acérrimas de força, um estilo próprio e cool, mas mesmo assim, a curiosidade pela senhora de 86 anos que ainda canta foi superior ao garage desta banda de LA. Uma pena, um concerto bom, mas a competição era feroz. Pode ser que voltem. Sozinhos.

E chegou à altura dos The Growlers – e da inquietude do cabelo do seu volcalista, Brooks Nielsen. Americanos de gema, não enganam ninguém com o seu estilo surfer rock com vibes dos anos 60 – houve tempo para tudo, correrias, despir roupas, empurrar pessoas, mas sempre com um único objectivo, agradar aos fãs e fazer mais uns pelo caminho.

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Vou ser sincera, não houve tempo para ouvir Shellac, mas como eles são da casa, vejo-os para o ano. E vai ser sempre como se os visse pela primeira vez.

Sampha, uma das sombras da música actual que se fartou de estar atrás das luzes e que quis finalmente saber o que valia enquanto artista. O palco encheu para ouvir Process, o disco de estreia do artista proveniente das terras de Sua Majestade. As primeiras filas mostraram a sua devoção, entoando todas as músicas de coração, nomeadamente a mais aplaudida da noite “Blood on Me”. Foi um concerto perfeito para a transição dia-noite.

E agora? Death Grips ou Metronomy? Bom, nada melhor que dividir e conquistar! Houve quem ficasse no Palco NOS à espera da banda britânica, que independentemente do local de Portugal onde actua é sempre a mais aplaudida, e houve quem se pusesse no meio da cool madness que é Death Grips – notavelmente conhecidos por mandarem a casa abaixo. Escolhas tem que ser feitas, e eu fiquei em Metronomy.

Tecendo elogios à cidade do Porto, Joe Mount – líder dos Metronomy, deu mote ao que seria o concerto – uma festa alegre, com muita dança e muitos sing-alongs, não fosse o público português ávido fã de Metronomy. Sempre vestidos de quintento fantástico, a combinar – prometem um espectáculo e cumprem a promessa.

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Ouvimos tudo o que estavamos à espera, intercalando músicas de Summer of ’08 com êxitos de English Riviera e Love Letters, foi um concerto feito para o público e não só de apresentação de um álbum. “The Bay”, “Old Skool”, “Love Letters” foram alguns dos temas acompanhados com precisão pelo público afinado. Houve também declarações de amor direccionadas a Anna Prior durante “Everything Goes My Way” tanto que se ouvia “Onde posso assinar os papéis do casamento?”. “Reservoir” fechou o set de uma das bandas mais aplaudidas no festival – há algo de intemporal e clássico em relação a Metronomy – é daquelas bandas que podem experimentar o que quiserem, que vão sempre ser adorados pelo público.

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E Japandroids, pá? Eu queria descansar – mas não dá.

O dueto electrificou o palco Super Bock depois de uma pausa dos palcos – e que saudades. Com novo disco, houve quem já soubesse todas as letras e as entoou alto e bom som, ali na primeira fila. Houve um débito de rock e punk no Parque da Cidade naquela que era a última data da sua digressão e deixem-me que vos diga, eles deixaram tudo no palco. Com direito ao saltinho da bateria a que já estamos acostumados.

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Para fechar a noite, chegava até NOS (sim, eu fiz isso) o cabeça de cartaz e nome mais aguardado da noite, Richard James, também conhecido como Aphex Twin. Senhor do experimentalismo é um dos pioneiros da música electrónica deu mote a uma dança cansada mas com direito a uma intensidade digna por parte do público que já sentia no corpo as sequelas de três dias de festival. Com uns efeitos visuais que contavam com a distorção de figuras mediáticas portuguesas, Aphex Twin levou o público aos êxtase como que se de um clímax musical se tratasse.

Nunca é uma despedida, mas sim um até já.

©Hugo Lima | www.huglima.com

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O Primavera volta para o ano, com a promessa de um cartaz de alto nível no local mais bonito de Portugal.