Melodrama II – Before & Now Review

Melodrama situa-se entre as festas e as manhãs seguintes, impressionando pela vulnerabilidade que apresenta. Uma sensação de fragilidade percorre o disco do princípio ao fim.

Auckland, Nova Zelândia. 2013
Don’t you think that it’s boring how people talk?

Uma gravação de um cover da Duffy chega às mãos de Scott Maclachlan, agente da Universal neo-zelandesa. A voz era de Ella Yelich-O’Connor, na altura com 12 anos. O intuito do vídeo era dar a conhecer o guitarrista, mas foi Ella quem recebeu o convite para assinar um contrato pela Universal.

Isto tem tudo para ser só mais um início da história de uma qualquer estrela pop, mas são as únicas linhas convencionais escritas no percurso de Lorde. Desde o primeiro momento que nada nela encaixa no padrão idealizado para uma estrela pop juvenil que assina por uma major. A proposta era gravar um disco de covers, mas Ella queria escrever as suas próprias canções. E assim foi.

4 anos mais tarde, nasce Lorde. O resto da história já é conhecida: em 2013, Royals, sem rodeios, dá a conhecer a artista, correndo rádios por todo o mundo; Pure Heroine, álbum de estreia, é um sucesso pela composição electrónica minimalista e irreverência típica de adolescente com que Lorde se apresenta, cantando sem pudor sobre os vícios de uma indústria com a qual não se identifica. A miúda gótica de 16 anos com uma postura intrigante dá à volta ao mundo em tour por duas e três vezes actuando em salas esgotadas. E depois desaparece.

 

Nova Iorque, Estados Unidos da América. 2017
I do my make-up in somebody else’s car

No final da tour em 2014, Lorde faz um hiato para gravar aquele que seria o sucessor do disco de estreia.

Ella não se rodeou de um conjunto de produtores ou recorreu a ghostwriters; à semelhança do que aconteceu com Pure Heroine, escolheu um produtor e foi com ele que trabalhou no disco do princípio ao fim. Para este disco, Jack Antonoff (Bleachers, fun.) foi o parceiro de viagem de Lorde. Ele e um piano.

O processo demorou quase dois anos e meio a ser concluído. Começou a ser escrito em paraísos desconhecidos na Nova Zelândia, acessíveis apenas de helicóptero, passou por um grande período de maturação no estúdio caseiro de Jack Antonoff em Brooklyn e ganhou a sua forma final no estúdio nova-iorquino Electric Lady.

Melodrama é lançado no dia 16 de Junho de 2017.

O modo como começa é significativo de todo o caminho que levou: a voz entra quase a acapella, acompanhada apenas pelo piano. “I do my make-up in somebody else’s car” é o primeiro verso que ouvimos. Melodicamente, Green Light vai ganhando diversas camadas e texturas, acompanhando o acumular de ideias cantadas. Este tema marca o começo do fim. Se é certo que parte de um fim de relação, o disco foca-se muito mais no que se lhe sucede e em todo o conjunto de sentimentos associados ao próprio processo de crescer e deixar para trás os teen years.

Melodrama é um disco de pormenores: o piano está ligeiramente desafinado, a voz umas vezes está fora do tom e outras fora de tempo, as variações de intensidade são constantes. Uma sensação de fragilidade percorre este segundo disco do princípio ao fim, destacando-se como pontos culminantes dessa atmosfera (e do álbum) as faixas Liability e Writer in the Dark. Ao mesmo tempo, este não deixa de ser um disco dançável, prova disso a Supercut e The Louvre.

No fundo, Melodrama situa-se entre as festas e as manhãs seguintes, ambivalência resumida em Hard Feelings/Loveless, um dos temas predilectos do álbum. Na primeira parte, introspectiva e lenta, um eu vulnerável explora um conjunto de memórias associadas a um pós-fim de relação para, na segunda parte, desta feita mais upbeat, adquirir rapidamente uma postura irónica e descomprometida, satirizando a ideia de que os millennials são a L.O.V.E.L.E.S.S. Generation. Perfect Places é o final perfeito para este disco: a necessidade constante de procurar momentos inebriantes e de pura excitação dá lugar à confirmação de que, afinal de contas, isso não é suficiente. A busca por esse lugar perfeito revela-se irresolúvel.

Cheio de cores e texturas, Melodrama impressiona pela sua vulnerabilidade: após um primeiro álbum com uma sonoridade clean e uma abordagem segura, meio arrogante e típica de adolescente, Lorde, agora com 20 anos, quebra essas barreiras e deixa tudo a descoberto, proporcionando uma viagem intensa por todos esses sentimentos que a chegada à vida adulta e os desgostos amorosos acarretam. As imperfeições que compõem o álbum dão-lhe profundidade, trazendo para o mesmo uma noção de realidade e sinceridade intimidante, pouco usual.

Não foi por falta de aviso. We told you this was Melodrama.

 

Vê aqui a review visual Melodrama I .