Clothes, Music, Boys: (não é só) Um Memoir da Viv Albertine

Clothes, Music, Boys: (não é só) Um Memoir da Viv Albertine

Punk. Sei muito pouco sobre esse género. Não vale a pena negar, não sabia mesmo nada antes de ler este livro. Mas 400 e tal páginas depois, encontro-me a ouvir The Slits a qualquer hora do dia e a imaginar o que a Viv faria se vivesse uma das minhas aventuras há 40 anos atrás. E não, Clothes, Music, Boys não é só mais um livro sobre uma artista que enfrentou o sucesso e o fracasso.

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Tudo começou no meu primeiro ano de faculdade, quando um dos meus módulos teimava em abordar temas como a cultura e música punk em Inglaterra. Todos os meus colegas participavam na conversa mas eu não tinha nada a dizer. Não ter conhecimento sobre um assunto tão importante na música- ainda para mais estando a viver num país onde a cultura punk é tão importante- pode ser classificado crime (e como as coisas andam ultimamente, acreditem que é razão suficiente para ser deportada). Vi documentários e até ouvi algumas bandas mas estava a faltar algo. Contei a um amigo meu a minha curiosidade e ele disse-me logo “Tens de ler Clothes, Music, Boys da Viv Albertine. AGORA”. E assim o fiz. Li as primeiras páginas em Huddersfield e quando aterrei em Lisboa dei por mim com metade to livro lida. Não sentia que o estava a ler. Sentia apenas que era uma espécie de mosca na vida de Viv. E estava a adorar. Vou tentar não contar muito da história, mas há detalhes que não podem ficar de fora. O livro encontra-se dividido por dois lados: lado um (o meu favorito. Tive que dizer) em que ficou focado na cena punk e na carreira da Viv; e o lado dois, onde as The Slits já não existem e a sua vida pessoal baseia-se na filha, ou na tentativa de ter uma. Clothes, Music, Boys não deixa nada ou ninguém de lado. Tudo vai ser remexido e falado. Das drogas ao sexo, das doenças ao fracasso, merda (sorry not sorry) acontece a todos. Não havia dinheiro, objectivos ou telefones e muito menos meios para tornar o punk feminino um “fenómeno” mais aceitável. Mas com Clothes, Music e Boys, não havia razão para não fazerem a sua vida como queriam.

Viv and Ari of the Slits at the University of London 18/1/1980

Clothes: A loja Sex de Vivienne Westwood e Malcolm McLaren inspirou grande parte do grupo de amigos da Viv. Ao ver as roupas fantásticas que Sex vendia e ainda o seu processo de concepção, Viv sabia que a música podia ser também criada à base da imperfeição. Além da música que faziam, eram estas roupas que definiam a personalidade de cada um deles. Calçar DM com vestidos? Pesadelo para uns, sinónimo de beleza para outros.

Music: A Viv não sabia cantar, tocar ou afinar a sua guitarra. Mas isto não era razão para as The Slits serem menos importantes na cena punk. Até funcionou pelo contrário. A imperfeição das suas canções tornaram-se muito mais relevantes ao terem letras com um significado tão forte. (Estou agora a ouvir o álbum Cut e quem me dera voltar atrás no tempo...)

Boys: Não, não é necessariamente sobre as relações da Viv ou de qualquer outra pessoa do livro. É sim sobre a importância do sexo masculino nesta(s) década(s). Não havia nenhuma mulher que adquirisse o papel total de role model na vida de Viv, só mesmo a Vivianne e mesmo assim é uma afirmação arriscada. Neste mundo, o sexo masculino estava em vantagem e não há maneira de evitar o seu poder. Demorou uns anos mas agora apercebemo-nos o quanto as The Slits vieram quebrar muitos dos estereótipos, sem pensarem duas vezes. Quatro miúdas a invadirem a cena punk sem tentarem. Não acontece todos os dias.  

Se é um memoir? Sim, claro mas não o consigo classificar só dessa maneira. É honesto. É organizado. É real e genuíno. Nunca uma vida me pareceu fazer tanto sentido. Depois de acabar o livro dei por mim a falar inúmeros vezes da Viv ou da Ari ou mesmo do Sid Vicious e pensar no que eles fariam se vivessem a mesma situação ou aventura que eu nos anos 70. Ou de como a filha da Viv vai reagir quando ler este livro, ler os capítulos onde a sua mãe sofreu e batalhou só para a trazer ao mundo. Viv Albertine, foi um prazer ser a tua mosca. Até qualquer dia!

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