NOS PRIMAVERA SOUND | III/III

NOS PRIMAVERA SOUND | III/III

Lembram-se de quando as pessoas dizem que algum evento com chuva é "abençoado"? Bem, as minhas botas ensopadas acompanhadas de um impermeável trash bag style discordam e mesmo com baixas probabilidades de abertas continuei à espera de um sol radiante com 40ºC a acompanhar. Não aconteceu.   Mesmo assim e apesar de chuva, muita chuva, tanta chuva - o espectáculo tinha que continuar. Ninguém arredou pé do parque da cidade, aquele lago lamacento que apesar de tudo conseguiu, entre espirros e escorreganços pelas colinas, trazer ao público mais um dia de música, bela música.

Belako começaram por aquecer o placo NOS com um rock alternativo com vibes punk e não deixaram de dar tudo o que tinham apesar de um público que apesar de estar a levar com morrinha nas frontes, continuou a curtir a música vinda de Espanha com muito amor. O Primavera tem destas coisas, amor, carinho e música - daquela a sério que se tenta capitalizar e raramente se consegue (e ainda bem). Antes disso e mais cá em cima no recinto, tivemos Luís Severo no palco SEAT com alguns aventureiros sem impermeáveis a arriscarem a possibilidade de ver o concerto de Nick Cave com aquela transpiração/chuva que vai certamente dar em gripe nos dias seguintes - mas hey, a vida é para aproveitar, não é? Quanto ao português, as músicas estão no ouvido e havia uns quantos que as entoavam baixinho como que a aquecer o interior do impermeável.

Kelela, para mim foi a surpresa da tarde, para além de ter um público magnífico que sabia todas as músicas foi uma figura simpática que aumentou a sensualidade ao máximo - possível - porque os impermeáveis tem uma cota de sensualidade abaixo de zero. Não deixou de dizer o quão surpreendida estava por ter tantos jovens (principalmente) a vê-la na chuva e a entoar as suas músicas. Foi o toque mais sensual do festival, que foi atenuado pela chuva, mas não deixou de estar lá - uma das promessas do soul contemporâneo, fez bonito e nós agradecemos.

Os brasileiros Meta Meta puseram o público a dançar num dia em que os rostos estavam mais virados para procurar abrigo da chuva num estilo revolucionários que só os brasileiros conseguem emitir. Só com uma líder que irradia luz e poder foi um raio de sol em força.

Joe Goddard tentou aquecer os que ainda resistiam à chuva com os seus hits dançantes de veterano da música electrónica. Um concerto vibrante - que deveria ter acontecido por volta da 1 da manhã, de preferência sem chuva. A música de Goddard tem todos os componentes de uma noite brilhante de verão - com boa música e uns gins à mistura.

Mogwai e Nick Cave - reservados para os veteranos do festival, foram provavelmente o clímax. Mogwai são o que são - épicos em todos os sentidos e continuam a ser aquela banda com quem os hipsters não millenials dizem - eu cresci a ouvir Mogwai para parecerem fixes. Nick Cave foi indescritível, como é sempre - há um poder cativante da música proclamada de Cave - há sonhos, o prenúncio, pesadelos e terrores nocturnos - mas acima de tudo há esperança, vida, eternidade. Há quem chore, há quem cante - mas não há ninguém indiferente. Um sofrimento tão verdadeiro traduzido em letras angustiantes mas libertadoras - a chuva continuava a cair - anunciando o concerto provavelmente mais esperado da noite, e naquela altura, mesmo os cépticos, cheios de frio e molhados até à espinha, calaram-se e ouviram as palavras daquele que é um dos grandes génios da música, desde sempre.

P.S - Não sei se repararam mas choveu durante o dia TODO.

P.S.2 - Não pude fotografar Nick Cave - chorei por dentro.

P.S.3 - Podia ter um Primavera de novo amanhã.

Texto e Fotos: Joana Paiva                

Dear Diary, we went to Primavera Sound Barcelona 2018

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NOS PRIMAVERA SOUND | II/III

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