NOS Alive || Dia 1 || Retorno a Casa

NOS Alive || Dia 1 || Retorno a Casa

Chegou a altura do ano que todos nós ansiamos – pelo menos os enamorados pela música. Os festivais de verão servem como alimento para a alma em forma de música, performance e muita amizade. Para mim, a melhor altura do ano (apesar de este ano os festivais chegarem, mas o Verão nem por isso). E como bons amantes de festivais, fomos claro ao que nos viu nascer e crescer, o NOS Alive. O Passeio Marítimo de Algés continua a ser a casa-mãe da boa música, do sol e das boas memórias.

  O primeiro dia, com um sol envergonhado acompanhado de um vento salgado, trouxe o início das celebrações. Como cada artista e banda que tocaram tem características muitos distintas uns dos outros, decidimos fazer uma caracterização destas atuações e associar cada um dos atos a um cognome de um rei português – porquê? Perguntam vocês? Porque há adjetivos que permitem a caracterização exata do que vimos e também porque ainda ninguém fez anda assim – pode ser que no meio disto apareça o D. Sebastião (na pessoa do caro Álvaro Covões) no meio do nevoeiro e salve toda a pátria da escassez de música.

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JUANA MOLINA – "A Educadora"  Diretamente de Buenos Aires vem a experimentalista Juana Molina, veterana nestas coisas da folktronica e mãe de vários estilos de música alternativa. Uma educadora nata no que tem que ver com o som, mostrou às novas gerações que a música ainda existe e está bem de saúde e que realmente os instrumentos fazem falta, nem tudo precisa de ser feito em computador. Uma artista multifacetada, que para além da música faz trabalhos de dobragem e televisão, foi uma adição que muito aumentou o nível do renomeado palco Sagres (viva às marcas nacionais!).  

JAIN – “A Popular” Vestida quase como um soldadinho de chumbo, Jain mostrou que era possível dançar como se fossem 3 da manhã numa quinta-feira à tarde com os seu toques de electro-pop dançáveis e interação em êxtase com os seus fãs da fila da frente. Com Jain tivemos aquele sentimento que já há muito tempo não tínhamos no palco sagres do NOS Alive – sentimos que descobrimos música nova, algo de refrescante, diferente do habitual. Algo nos diz que esta menina vai muito longe – e cá estaremos para ver a sua estreia em palcos nacionais a solo.  

BRYAN FERRY – “O Conquistador” Há pessoas que são lendas da música e cuja obra vence o passar do tempo. Este é o caso de Bryan Ferry que apesar de desconhecido para muitos dos adolescentes do recinto houve sempre aquela frase “acho que esta foi a música do casamento dos meus pais”, referindo-se à icónica “Slave to Love” dos idos anos 80. Muito se poderia dizer de Bryan Ferry, um cavalheiro que se manteve charmoso e elegante com o passar do tempo, o perfeito início para o palco NOS muito polvilhado de nostalgia. Porquê “o conquistador”? Razões óbvias dirão as fãs dos Roxy Music, mas para já, porque conquistou gerações com as suas notas românticas e venceu realmente o teste do tempo.  

WOLF ALICE – “Os Bravos” Numa altura em que o rap domina as tabelas, é bom ver que uma banda de rock, liderada por uma mulher valente consegue tocar num dos palcos com maior afluência num dos maiores festivais da europa. Wolf Alice entraram devagarinho em Portugal, pé-ante-pé mas conseguiram conquistar várias faixas etárias com o seu rock já galardoado com vários prémios. Ellie Roswell (vocalista) é uma líder como há muito já não se via, uma Kim Gordon da atualidade com um sentido estético apurado, tanto para a vestimenta como para os riffs arrojados com a guitarra. Claro que como mulheres, anda nos orgulha mais do que uma cool chick em cima do placo a erguer uma guitarra bem alto. São os “bravos” pela audácia de serem verdadeiros a eles mesmos e não se acomodarem ao estado das coisas.

NINE INCH NAILS – “Os Eloquentes” Trent Reznor e companhia são mais do que uma banda de culto, a banda que todos ouviam na melhor década de sempre, a década de nascimento das fundadoras do Side Stage – os anos 90. Este foi certamente um dos melhores concertos do festival, com Reznor na liderança, como sempre – o seu génio é magnânimo, um dos melhores multi-instrumentalistas do presente com as melhores letras de sempre. Nine Inch Nails mereciam, pela eloquência da sua música um lugar bem mais alto no pódio do palco NOS porque para nós é mesmo bem capaz de ter sido o melhor concerto do festival inteiro. Tivemos ainda direito à cover de “I’m afraid of americans” de David Bowie – uma mensagem bastante atual para os dias que correm. Estes podem voltar – sempre que quiserem que nós vamos estar lá sempre para os ouvir até porque soube a pouco.  

FRIENDLY FIRES – “Os Grandes” Uma bada eletrizante com um vocalista com bichos carpinteiros. Foi um dos concertos mais divertidos deste primeiro dia do NOS Alive, sem dúvida alguma. Um set colorido, cheio de êxitos, numa tenda praticamente repleta de gente. Friendly Fires são aquela banda que toda a gente já gostou em algum momento da sua vida, e eles não se importam com isso, vão dar sempre mais do que 100% nos seus concertos. São “os grandes” por todas as razões que referi e mais algumas.  

KHALID –  “O Venturoso” Uma enchente de gente para ver aquele que se atreve a quebrar a moda e aceita por completo ser um dos príncipes da pop da atualidade. Quando digo enchente não falo de uma tenda parcialmente cheia, falo mesmo de uma tenda a abarrotar de gente, com pessoas impossibilitadas de entrar sequer e dar uma vista de olhos a este “fenómeno”. Claro que Khalid tem música que apela aos conflitos da juventude com a vida em geral, daí a tal proximidade mas para nós, este tipo de estrelas está a anos luz daqueles artistas que ficam marcados para sempre na vidas das pessoas (aliás já nem sei se os há). Foi um concerto divertido com direito a bailarinas e gritos histéricos de adolescentes.  Ah, conhecemos uma das músicas “Young Dumb & Broke”. O “venturoso” por razões óbvias.  

PAUS + HOLLY HOOD “Os Quebra-Barreiras” Os nossos portugueses não podiam ser esquecidos, nomeadamente os reis do rock português – Paus, acompanhados por Holly Hood – uma fusão de rock com cultura hip-hop que nos poderia levar a pensar que era talvez arriscado demais. Como bom tuga diz, "quem não arrisca, não petisca", este ajuntamento saiu vitorioso pelo sucesso da fusão que arrastou pequenos moshs pela tenda fora, de LA nos dedos (Linha da Azambuja pessoal!). A pujança da bateria siamesa com a potência das letras de Holly Hood culminaram num dos concertos mais energéticos do festival.    

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ARCTIC MONKEYS “Os Povoadores” Este cognome para estes meninos em particular pode ser um pouco complicado de explicar mas acho que consigo – apesar de Nine Inch Nails conseguirem uma boa formação à frente do palco, ela aumentou em Arctic Monkeys – segundo alguns a melhor banda da nossa geração. Uma sucessão de álbuns de top adicionado a êxito de venda de bilhetes exaltou ainda mais a figura desta banda de Sheffield que mantém agora uma imagem curada, estática até porque chegou a um ponto que parecia que ao invés de um concerto de rock estávamos no Madame Tussauds a ver estátuas de cera. Não me levem a mal, adoro os “Monkeys” –  como são conhecidos nesta tour para facilitar qualquer engano a soletrar “Arctic”. A música é boa, já toda a gente sabe que sim, apesar de não ser para todos os gostos – sobretudo o novo álbum de aparente “música de elevador” dizia um rapaz ao nosso lado. Valeram os êxitos passados e recentes para dar um pouco de ânimo ao sempre simpático e interativo Alex Turner…isto era uma piada, como é óbvio.  

SAMPHA “O Vitorioso” Sampha, o vitorioso. O que dizer sobre este vencedor do Mercury Prize, é sem dúvida um dos melhores artistas da atualidade com músicas tão repletas de sentimento quanto letras repletas de música em si. Um concerto muito aguardado por vários dos elementos do Side Stage, mostrou-nos ser um artista completo, no entanto não negamos a sua proficiência no piano, tanto que um dia ainda aguardamos ouvi-lo dessa forma.  Como qualquer artista, nos seus sets faz covers e neste caso foi SBTRKT com “Hold On” que ficou belíssima na sua mão.  

ORELHA NEGRA “os reformadores” Orelha Negra, já não necessitam apresentações. Continuam a mexer com as marés da forma que lhe apetece mantendo sempre o som que os distingue, sem dúvidas das melhores bandas que o nosso país alguma vez produziu. Com um espetáculo audiovisual a envolver os 5 meninos em palco, fechámos o dia de coração cheio de clássicos intemporais, que nos levam sempre numa linda viagem.       Foi um dia variado, para não dizer um pouco aleatório desde o indie rock para o rock para valentes, de pop para eletrónica passando pelas baladas românticas dos anos 80. Um festival eclético ali mesmo à beira-mar.

texto: Joana Paiva fotos: Ana Viotti, excepto: Juana Molina por Hugo Macedo | Nine Inch Nails e Arctic Monkeys por Arlindo Camacho  

NOS Alive || Dia 2 || Não deixem o rock morrer

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Side Stage interviews... Yonaka

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